O futuro da segurança: de proteção de TI a pilar de governança

Durante muitos anos, acreditamos que a tecnologia seria a principal fonte de vantagem competitiva. Hoje, essa vantagem já não está na tecnologia, mas na capacidade das organizações de governá-la com segurança. Inteligência Artificial, computação em nuvem, automação e plataformas digitais deixarão de ser diferenciais para se tornar commodities. O fator de competitividade será a capacidade de utilizá-las com confiança, segurança e controle.

A tecnologia deixou de ser suporte e passou a influenciar crescimento, receita, reputação, conformidade e continuidade operacional. Cada decisão tecnológica tornou-se uma decisão de negócio. Da mesma forma, cada risco cibernético passou a representar um risco financeiro, operacional e estratégico. Estudos empíricos mostram que empresas afetadas por incidentes cibernéticos sofrem desvalorização média de 2% em seu valor de mercado em relação às não afetadas, evidenciando o impacto direto na valuation (Cavusoglu et al., 2004; Arcuri et al., 2018). O Allianz Risk Barometer 2025 posicionou incidentes cibernéticos como o principal risco global para empresas (38%), à frente até mesmo de interrupção de negócios (31%) (Allianz, 2025).

Nesse contexto, a Segurança da Informação assume um novo papel: deixa de ser uma função técnica voltada apenas à proteção de servidores, redes e aplicações e passa a ser um pilar da governança corporativa. Seu objetivo é preservar o que sustenta uma organização: confiança, capacidade operacional e geração de valor. A governança de segurança da informação (GSI) é hoje reconhecida como subconjunto da governança corporativa que provê direção estratégica, gerencia riscos apropriadamente e monitora o sucesso ou falhas do programa de segurança institucional (NIST; ISO/IEC) . Frameworks como NIST CSF 2.0, os princípios do SP 800-207 Zero Trust, ISO 27001/27002, CIS Controls v8.1 e AI Risk Management Framework consolidam essa visão, oferecendo estruturas para mapear controles, avaliar maturidade e alinhar segurança aos objetivos de negócio (NIST, 2024; ISO/IEC, 2022; CIS, 2024) .

A Inteligência Artificial acelera essa transformação, amplia produtividade e transforma processos inteiros. Porém, produz o mesmo efeito para quem está do outro lado. Ataques tornam-se mais sofisticados, fraudes ganham escala, campanhas de engenharia social ficam personalizadas e vulnerabilidades podem ser exploradas em minutos. Inovação e ameaça evoluem praticamente no mesmo ritmo. O custo global de ataques cibernéticos já é estimado em US$ 10,5 trilhões por ano, com violações de dados custando em média US$ 4,44 milhões por incidente (NTT DATA, 2026; IBM, 2025) . No Brasil, o cenário é ainda mais crítico: em 2025, o país registrou 753,8 bilhões de tentativas de ataques cibernéticos, quase 1,4 milhão por minuto, e um crescimento de 535% em atividades de distribuição de malwares em relação a 2024 (Fortinet, 2026; O Tempo, 2026) . O tempo médio para comprometimento em crimes eletrônicos caiu para apenas 29 minutos, um aumento de 65% na velocidade em relação ao ano anterior (CrowdStrike, 2026) .

Essa realidade muda a forma como as empresas precisam administrar riscos. Hoje, esse modelo perde relevância diante de ambientes distribuídos entre nuvens, APIs, parceiros e serviços. O novo perímetro passa a ser a identidade. Pessoas, aplicações e dispositivos precisarão ser gerenciados com o mesmo rigor antes dedicado à infraestrutura. Ataques à cadeia de suprimentos, por exemplo, dobraram em 2025, representando 22,5% de todas as violações de segurança registradas no período, com tempo médio de 254 dias para detecção e contenção (Cipher, 2026; Verizon DBIR, 2025) .

Surge uma nova fronteira: os agentes autônomos de IA. Em breve, eles deixarão de apenas recomendar ações para executar processos, tomar decisões e interagir com outros sistemas. Não bastará governar colaboradores e fornecedores; será necessário governar agentes inteligentes, credenciais automatizadas e fluxos decisórios conduzidos por IA. A IA agencial (agentic AI) já é apontada como tendência crítica para 2026, com sistemas autônomos capazes de decidir, agir e aprender continuamente, exigindo governança baseada em intenção e monitoramento comportamental (Forcepoint, 2026; Gartner, 2026). O uso ativo de IA em estratégias de cibersegurança saltou de 50% em 2025 para 78% em 2026, mas a governança não acompanhou: 87% das organizações brasileiras ainda não possuem políticas de governança de IA e 63% das empresas violadas não têm políticas ou estão em fase de desenvolvimento (SANS Institute, 2026; Convergência Digital, 2025).

Outro conceito ganhará protagonismo: resiliência. Nenhuma empresa conseguirá impedir todos os incidentes. O diferencial será identificar rapidamente um evento, responder de forma coordenada, preservar operações críticas e recuperar serviços sem comprometer clientes, receita ou reputação. Segurança já deixa de ser uma discussão sobre proteção absoluta e passa a se tornar uma discussão sobre continuidade do negócio. Ataques de ransomware, por exemplo, geram prejuízo médio de US$ 5,3 milhões e exigem 25 dias para recuperação, sendo que 52% dos custos estão ligados à interrupção das operações (Sophos, 2025; Brasiline, 2026). No Brasil, o custo médio de uma violação de dados atingiu R$ 7,19 milhões em 2025, um aumento de 6,5% em relação a 2024, com setores como Saúde, Finanças e Serviços liderando a lista dos mais impactados (R$ 11,43 milhões, R$ 8,92 milhões e R$ 8,51 milhões, respectivamente) (PwC, 2025).

Na minha experiência, os Conselhos de Administração já compreendem que Segurança da Informação não é apenas um centro de custo, mas uma alavanca de valor e gestão de riscos. Ela influencia valuation, confiança dos investidores, capacidade de expansão, inovação e crescimento sustentável. Empresas que incorporam segurança à inovação desde a estratégia tomam decisões mais rápidas, inovam com menor exposição ao risco e constroem relações de maior confiança. Pesquisas indicam que 95% dos CISOs já apresentam atualizações regulares aos conselhos, embora 39% ainda acreditem que as pautas de cibersegurança não são priorizadas e 64% mencionam cadência insuficiente de reportes (IANS Research, 2026; IT Security, 2026). Além disso, 76% das equipes de segurança já assumiram responsabilidade pela governança de IA corporativa, mas a maturidade da governança praticamente não avançou entre 2025 e 2026 (SANS Institute, 2026).

Os próximos anos não serão liderados pelas empresas que possuírem mais tecnologia, mas pelas organizações capazes de transformar tecnologia em vantagem competitiva, dados em inteligência, segurança em confiança e governança em crescimento sustentável.

Esse será, na minha visão, o verdadeiro papel da Segurança da Informação diante da inovação tecnológica: não apenas proteger ativos digitais, mas garantir que as empresas continuem crescendo com confiança em um mundo cada vez mais conectado, automatizado e imprevisível.

Paulo Baldin
Sócio Diretor de Segurança da Informação (CISO) da CLA Brasil

Partner e CISO na CLA Brasil, é reconhecido como uma das principais autoridades em cibersegurança no Brasil. Com mais de 20 anos de experiência e participação em mais de 150 projetos nacionais e nternacionais. Possui 14 premiações no setor, com reconhecimentos no Brasil, Argentina, México, Estados Unidos e em toda a Iberoamérica, 72 certificações como CISM, CDPSE, C|CISO, E|CSA, DPO  e foi classificado pela Leaders League 2025 como “Altamente Recomendado” e em 2026 como “Excelente”. É palestrante (+150), colunista (+120), co-autor (+10), professor convidado (+1.000 alunos) e mentor de profissionais.

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