Fala sério, é insuportável ter que ouvir abominações de quem não enxerga a verdade sobre política e economia, não é?
Eu já senti muita raiva, hoje tenho preguiça. Mas confesso que, dependendo do absurdo, a vontade que tenho é de descer o nível!
Em nome da saúde mental e da segurança física, acredito que o melhor seja separar em dois lados mesmo, cada um no seu quadrado e que viva com os seus!
SERÁ…?!
Sabe do que eu estou cansado mesmo, sabe o que me frustra? Ver o extremismo e a visão turva demuitos, muitos de ambos os lados.
É inegável a fossa abissal que se criou entre um volume gigantesco da população por conta de suas preferências políticas. Gente que pensa diferente sendo incapaz de dialogar e, por consequência, sendo incapaz de ampliar sua visão e sua consciência.
E como ficam todas as outras áreas da vida em meio a tudo isso? Como fica o trabalho, como ficam asempresas? Como fica a liderança?
Dentro das empresas, talvez existam líderes de alinhamento político à esquerda querendo esfregar na cara dos liderados de direita que seu candidato ganhou, talvez existam líderes de alinhamento político à direita querendo demitir funcionários que se declaram de esquerda.
Seria ótimo ter um time inteiro de pessoas que pensam como eu, não é?
Pois eu tenho uma notícia para te dar:
Não, não é!
Em seu livro Ideias Rebeldes, Matthew Syed fala amplamente sobre os efeitos de construir equipes compostas por pessoas com perfis cognitivos semelhantes, que compartilham experiências, conhecimentos e maneiras parecidas de interpretar o mundo.
O autor explora o conceito de diversidade cognitiva: a riqueza produzida pela reunião de diferentes perspectivas, experiências, conhecimentos e formas de raciocínio.
E aqui está um ponto fundamental: por mais inteligentes e competentes que sejam individualmente, pessoas que pensam de maneira muito semelhante podem compartilhar também os mesmos pontos cegos.
E isso não é apenas uma reflexão filosófica.
Em 2004, os pesquisadores Lu Hong e Scott Page demonstraram, por meio de modelos matemáticos, que, sob determinadas condições, grupos com maior diversidade de abordagens podem superar grupos selecionados exclusivamente pelo desempenho individual de seus integrantes.
Outro estudo, publicado em 2009 por Katherine Phillips e seus colegas, encontrou algo especialmente curioso: grupos que incluíam integrantes socialmente diferentes apresentaram melhor desempenho em uma tarefa experimental, embora seus participantes demonstrassem menor confiança nos próprios resultados.
Percebe o paradoxo? Estar cercado de pessoas que concordam conosco pode até ser mais confortável. Mas conforto não é sinônimo de qualidade nas decisões.
E existe um exemplo histórico que ajuda a compreender essa lógica.
Durante séculos, a construção de mapas dependeu da integração de informações fornecidas por diferentes observadores. Navegadores, exploradores, cartógrafos e habitantes dos territórios contribuíam com conhecimentos que, confrontados e reunidos, permitiam construir representações mais abrangentes do mundo.
Afinal, como alguém poderia representar um território inteiro conhecendo apenas uma parte dele?
E por que seria diferente quando tentamos compreender os desafios de uma empresa, de uma equipe ou da própria sociedade?
É claro que reunir pessoas diferentes não garante, por si só, resultados melhores. É preciso que exista espaço para o diálogo, para o questionamento e para a integração dessas diferentes perspectivas.
Mas me diga: como isso seria possível em um ambiente onde discordar é motivo para desqualificação? Onde a opinião de alguém perde o valor simplesmente porque essa pessoa não compartilha das nossas convicções?
Quando um líder só escuta quem concorda com ele, talvez não esteja construindo uma equipe alinhada. Talvez esteja construindo uma equipe que simplesmente reproduz seus próprios pontos cegos.
Uma equipe de alta performance não precisa ser formada por cópias do seu líder. Precisa reunir pessoas capazes de enxergar aquilo que ele, sozinho, não consegue.
E talvez esse seja um dos grandes desafios da liderança, e também da nossa convivência em sociedade: reconhecer que a nossa própria perspectiva, por mais bem fundamentada que pareça, nunca esgota todas as possibilidades de compreensão.
Então, antes de defender que cada um permaneça no seu quadrado, talvez valha a pena fazer uma pergunta:
Se cada um de nós enxerga apenas o próprio quadrado, quem é que vai conseguir enxergar o mapa inteiro?



