Por Paulo Brenha
O Brasil decidiu nas urnas quem conduzirá o país pelos próximos quatro anos. Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito para seu quarto mandato presidencial. Mas, enquanto a política celebra o encerramento de mais uma disputa eleitoral, o varejo brasileiro precisa olhar para uma realidade que não muda com o resultado das urnas: as contas continuam chegando.
O desafio não será apenas estimular o consumo. Será criar condições para que o consumidor tenha capacidade de compra, as empresas tenham rentabilidade e o país consiga crescer sem depender permanentemente de mais endividamento.
Há uma diferença importante entre movimentar a economia e construir crescimento sustentável. E essa diferença poderá definir os resultados do varejo entre 2027 e 2030.
O brasileiro quer consumir, mas quanto da renda ainda está disponível? O primeiro sinal de alerta está no orçamento das famílias.
Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 81,7% das famílias brasileiras estavam endividadas em setembro de 2026. Embora o indicador tenha registrado uma pequena redução, 29,6% das famílias continuavam com contas em atraso.
É importante diferenciar endividamento de inadimplência, pois ter parcelas a pagar não significa necessariamente estar em dificuldade financeira. O problema surge quando o peso dos compromissos começa a limitar as novas decisões de consumo e é exatamente essa a preocupação para os próximos anos.
Quando parte significativa da renda já está comprometida com cartão de crédito, financiamentos e empréstimos, o aumento salarial nem sempre se transforma em novas compras. Muitas vezes, ele serve apenas para reorganizar o orçamento doméstico.
O Brasil pode continuar produzindo empregos, ampliando renda e movimentando o comércio sem que isso represente, automaticamente, um avanço proporcional no consumo discricionário.
Para o varejo, essa realidade muda o jogo uma vez que o consumidor passa a comparar mais preços, reduzir quantidades, substituir marcas e adiar compras de maior valor. Não basta haver dinheiro circulando na economia, é preciso que sobre dinheiro no bolso das pessoas. Esse talvez seja um dos maiores desafios econômicos do quarto mandato de Lula.
A dívida pública também chega ao balcão do comércio
Dados do Banco Central mostram que a dívida bruta do governo geral alcançou R$ 11,1 trilhões em agosto de 2026, equivalentes a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB). No mesmo período, os juros nominais do setor público consolidado acumularam aproximadamente R$ 1,18 trilhão em 12 meses.
Esses números precisam ser interpretados com responsabilidade. Uma dívida pública elevada não significa, por si só, insolvência do Estado, mas sua trajetória, o custo de financiamento e a capacidade de estabilizá-la influenciam as expectativas econômicas, os investimentos e as condições de crédito.
Quando a percepção de risco fiscal aumenta, os investidores podem exigir remuneração maior para financiar o governo. Isso pressiona os juros de longo prazo e pode encarecer o crédito para empresas e consumidores, mesmo quando a taxa básica começa a recuar.
Juros elevados encarecem o capital de giro, aumentam os custos de carregamento de estoques e tornam o parcelamento mais oneroso. Uma empresa pode registrar crescimento de faturamento e, ainda assim, perder capacidade de investimento porque sua geração de caixa não acompanha o custo financeiro.
É preciso olhar também para a dívida ativa da União, que representa créditos tributários e não tributários devidos ao Estado, e não a dívida contraída pelo próprio governo. A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional informou ter recuperado R$ 66,1 bilhões desses créditos em 2025.
A recuperação de valores devidos é importante para a arrecadação e a justiça fiscal, mas nem todo crédito inscrito é efetivamente recuperável, e o desafio está em combinar cobrança eficiente, segurança jurídica e condições de regularização para empresas economicamente viáveis.
A questão central não é defender menos Estado ou mais Estado. É discutir a qualidade do gasto, a previsibilidade das contas públicas e a capacidade de gerar desenvolvimento sem transferir desequilíbrios para o futuro.
O varejo precisa de consumidores com crédito acessível e o país precisa de contas públicas que não agravem continuamente o custo desse crédito.
O endividamento das empresas revela outro problema
O consumidor não é o único que chega ao próximo ciclo pressionado financeiramente: a Serasa Experian identificou 9,3 milhões de empresas inadimplentes em agosto de 2026, com R$ 244,4 bilhões em dívidas negativadas. Desse total, 8,8 milhões eram micro e pequenas empresas.
Estamos falando de negócios dos mais diversos setores, incluindo empresas que sustentam cadeias de distribuição, fornecimento, comércio e serviços. Esse cenário deveria ocupar espaço central na discussão econômica dos próximos quatro anos.
Porque existe uma contradição preocupante sobre querer que as empresas invistam, contratem e cresçam, mas uma parcela expressiva delas ainda luta para reorganizar o próprio caixa.
É possível ampliar vendas com descontos, prazos e crédito. Mais difícil é garantir que essas operações contribuam para o resultado econômico.
No varejo, isso aparece de maneira concreta. A empresa compra mercadorias com capital caro, oferece condições comerciais para preservar clientes, enfrenta custos operacionais crescentes e, no fim do mês, precisa administrar uma margem que nem sempre acompanha o faturamento.
Crescer nessas condições exige muito mais disciplina financeira do que entusiasmo comercial.
Oportunidades existem, mas elas precisam se sustentar
O novo mandato também apresenta possibilidades relevantes para o comércio. Isso porque políticas de transferência de renda, valorização do salário mínimo, investimentos em infraestrutura e programas habitacionais podem favorecer diferentes segmentos da economia. Seus efeitos dependerão do alcance, do financiamento e da continuidade das iniciativas.
O varejo alimentar, os medicamentos, os produtos de higiene e as categorias ligadas às necessidades essenciais tendem a estar diretamente relacionados à evolução do poder de compra das famílias. Construção, móveis e eletrodomésticos, por sua vez, são particularmente sensíveis às condições de crédito e ao investimento habitacional.
Há ainda ganhos potenciais associados à formalização econômica, à digitalização dos negócios e ao aumento da produtividade, mas precisamos abandonar uma leitura excessivamente simplificada do crescimento.
Mais consumo financiado por crédito caro não é necessariamente uma conquista duradoura. Mais faturamento com margens comprimidas não representa, obrigatoriamente, empresas mais saudáveis.
O avanço econômico precisa ser observado pela combinação entre emprego, renda real, produtividade, investimento e sustentabilidade fiscal. O Brasil precisa de um consumidor que compre não apenas porque conseguiu mais limite de crédito, mas porque efetivamente conquistou maior capacidade de consumo.
Reforma tributária e jornada de trabalho: duas transformações que exigirão execução
Além dos desafios macroeconômicos, o comércio entrará em 2027 enfrentando mudanças estruturais importantes. A reforma tributária sobre o consumo avança para uma nova etapa com a CBS e o IBS, alterando gradualmente a lógica de tributação, os mecanismos de crédito, as obrigações fiscais e as decisões de precificação.
A simplificação do sistema poderá representar ganhos de eficiência e segurança jurídica no longo prazo. Entretanto, a transição exigirá investimento em tecnologia, revisão de processos, qualificação de equipes e atenção ao capital de giro.
Também teremos os efeitos da Emenda Constitucional 141, promulgada em outubro de 2026, que estabelece dois dias de repouso semanal remunerado e a redução gradual da jornada máxima de trabalho, sem redução salarial: 42 horas semanais a partir de dezembro de 2026 e 40 horas a partir de dezembro de 2027.
O debate não pode ficar restrito ao custo adicional potencial para os empregadores, tampouco ignorá-lo.
A reorganização das jornadas poderá gerar desafios de escala, contratação e cobertura operacional, especialmente em atividades de funcionamento prolongado. Por outro lado, melhores condições de descanso podem favorecer a retenção de profissionais, a qualidade do atendimento e a produtividade.
A diferença estará na capacidade de adaptação das empresas e na construção de soluções que conciliem direitos, competitividade e sustentabilidade dos negócios. O varejo precisará aprender a produzir mais valor por hora trabalhada, utilizando tecnologia, organização operacional e liderança de pessoas.
Essa transformação terá consequências muito mais concretas do que qualquer discussão ideológica sobre o tema.
O que deveríamos cobrar dos próximos quatro anos?
O varejo brasileiro não precisa de unanimidade política, precisa de um ambiente econômico em que seja possível planejar, investir e crescer.
Isso significa observar o próximo mandato por indicadores objetivos: a evolução da renda real, o comprometimento financeiro das famílias, o custo do crédito, a trajetória da dívida pública, a qualidade do gasto governamental e os ganhos de produtividade.
Também será necessário avaliar a capacidade de execução das reformas, a previsibilidade regulatória e os efeitos das políticas econômicas sobre pequenas, médias e grandes empresas.
Ao governo caberá administrar escolhas que envolvem estímulo à atividade, responsabilidade fiscal e proteção da renda. Ao setor privado caberá melhorar eficiência, disciplina de capital, gestão de pessoas e capacidade de adaptação.
Nenhum desses desafios será resolvido apenas com medidas de curto prazo. Os dados do IBGE reforçam essa necessidade de realismo. Até agosto de 2026, o volume de vendas do varejo restrito acumulava crescimento de 1,7% no ano. Um resultado positivo, mas que não autoriza confundir expansão de receita nominal com fortalecimento estrutural do setor.
O varejo também precisa fazer sua parte. Há empresas que ainda comemoram crescimento de vendas sem acompanhar adequadamente a margem de contribuição, o retorno sobre o capital investido ou a geração efetiva de caixa.
Nesse novo ciclo, não será suficiente vender mais, será necessário vender melhor, comprar melhor, financiar melhor e conhecer profundamente o comportamento financeiro do consumidor.
O resultado das urnas não encerra a discussão econômica
Lula recebeu um novo mandato e isso oferece continuidade política para determinadas agendas, mas não elimina os desafios fiscais, financeiros e produtivos já existentes.
O país chega a 2027 com oportunidades reais de desenvolvimento, mas também com famílias endividadas, empresas financeiramente pressionadas e um Estado diante de decisões relevantes sobre suas contas.
A avaliação dos próximos quatro anos não deveria ser feita por simpatia ou oposição ao presidente, mas sim considerar a capacidade de transformar políticas públicas em renda sustentável, investimento produtivo, estabilidade econômica e desenvolvimento empresarial.
Porque o comércio não vive de narrativas, vive de pessoas entrando nas lojas, comprando, pagando e voltando, vive de empresas capazes de honrar seus compromissos, investir e gerar empregos.
O Brasil não pode continuar tratando o aumento do consumo como sinônimo automático de prosperidade. O verdadeiro avanço não será fazer o brasileiro comprar mais do que pode, será criar condições para que ele possa comprar mais sem comprometer o próprio futuro.
As urnas definiram quem governará o Brasil pelos próximos quatro anos. Agora, o que determinará a força do varejo não será apenas o tamanho das vendas, mas a capacidade de transformar esse movimento em desenvolvimento que permaneça quando o estímulo terminar.
Porque uma economia não se sustenta apenas quando as pessoas conseguem comprar. Ela se fortalece quando as pessoas conseguem pagar, as empresas conseguem prosperar e o país consegue financiar seu próprio futuro.



